Gênero • Desejo

Desejar e ser desejada não são a mesma experiência

Às vezes aprendemos muito cedo a perceber se estamos sendo desejadas. E bem menos a perguntar o que nós mesmas desejamos.

Um texto sobre desejo, reconhecimento, feminilidade e a diferença entre querer alguém e organizar a vida para ser escolhida.

O olhar do outro chega cedo

Para muitas mulheres, a relação com o próprio corpo e com o amor é atravessada desde cedo por perguntas sobre como serão vistas: estou bonita? sou desejável? pareço feminina? estou exagerando? Essa atenção ao olhar do outro não nasce do nada. Ela é reforçada por imagens, comentários familiares, publicidade, relações e modos de reconhecimento social.

Isso não significa que mulheres não desejem. Significa que, em alguns roteiros de feminilidade, ser objeto de desejo recebe tanta importância que pode ocupar o lugar da pergunta sobre o próprio querer.

Ser escolhida pode virar uma medida de valor

Quando o reconhecimento amoroso funciona como prova de valor, perder o interesse de alguém pode doer não apenas pela perda daquela relação, mas porque ameaça uma confirmação sobre si. Nesse cenário, é possível lutar intensamente para ser escolhida por alguém que, se a pergunta fosse apenas sobre desejo, talvez nem fosse uma escolha tão evidente.

Por isso, “eu quero essa pessoa” e “eu preciso que essa pessoa me queira” não são frases equivalentes. Elas podem coexistir, mas apontam para movimentos psíquicos diferentes.

Desejo também envolve conflito

Recuperar a pergunta “o que eu quero?” não produz automaticamente uma resposta pura, livre de história e de cultura. Nosso desejo também se constitui em relação. Podemos querer coisas contraditórias, desejar e temer o mesmo encontro, buscar reconhecimento e autonomia ao mesmo tempo.

O objetivo não é encontrar um desejo totalmente isolado do mundo. É poder perceber quando o olhar do outro fala tão alto que já não conseguimos distinguir outras vozes.

Uma pergunta que não precisa ser respondida depressa

Talvez a diferença mais importante não seja entre desejar ou ser desejada, como se precisássemos escolher um lado. Relações também são feitas de reciprocidade, reconhecimento e encontro.

Mas pode ser transformador sustentar uma pergunta antes de correr para a resposta: se eu não precisasse provar que sou desejável, o que. E quem. Eu desejaria?

Texto de caráter informativo e reflexivo. Não substitui avaliação ou atendimento psicológico individual. Evite usar textos de internet para autodiagnóstico.

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