Nem toda insegurança pode ser explicada como falha individual de autoestima. Contexto, relações e desigualdades também participam de como nos percebemos.
Uma explicação confortável demais
Autoestima é uma palavra útil em muitos contextos. O problema começa quando ela se torna explicação total: se alguém aceita pouco, é baixa autoestima; se sente insegurança no trabalho, baixa autoestima; se sofre com o corpo, baixa autoestima; se permanece numa relação, baixa autoestima.
Quando uma ideia serve para explicar tudo, ela pode começar a explicar pouco. Há experiências que envolvem história, condições materiais, racismo, sexismo, reconhecimento profissional, relações violentas, precariedade e inúmeras outras dimensões que não desaparecem quando uma pessoa “se ama mais”.
O risco de individualizar o mundo
Existe uma promessa sedutora no discurso de autoestima: se o problema está inteiramente dentro de mim, talvez eu também consiga resolvê-lo sozinha. Isso devolve sensação de controle. Mas também pode transformar sofrimento produzido em relação com o mundo numa tarefa individual de aperfeiçoamento.
Uma mulher pode ter construído uma relação relativamente boa consigo e ainda ser atravessada por padrões de beleza, julgamentos sobre envelhecimento ou desigualdades no trabalho. Reconhecer o contexto não elimina a experiência subjetiva; torna-a mais completa.
Gostar de si não resolve a ambivalência
Também não existe uma relação consigo mesma permanentemente estável. Podemos nos sentir competentes em uma área e frágeis em outra, gostar de partes de nossa história e desejar transformar outras. A exigência de “se amar primeiro” pode criar outra obrigação impossível: além de tudo, agora precisamos estar plenamente resolvidas antes de viver relações.
Talvez a pergunta seja outra
Em alguns momentos, faz sentido perguntar como alguém se vê. Em outros, pode ser mais interessante perguntar: quem participa desse olhar? Que experiências sustentam essa imagem? Que condições concretas estão sendo apagadas quando chamamos tudo de autoestima?
Uma psicologia que leva o sujeito a sério não precisa escolher entre o íntimo e o social. Pode investigar justamente o lugar em que os dois se encontram.